EXPOSIÇÃO . À QUEIMA-ROUPA: UMA COLEÇÃO CONTEMPORÂNEA
À QUEIMA-ROUPA: UMA COLEÇÃO CONTEMPORÂNEA
Curador: José Augusto Ribeiro
Período: 21 de março a 19 de dezembro de 2026
Livre para todos os públicos
O objeto desta exposição é a Coleção Dulce e João Carlos Figueiredo Ferraz – não é um tema ou uma técnica, não é um gênero artístico nem um corte cronológico localizado nesse acervo; mas sua formação, os critérios, as preferências e as injunções históricas que o balizam, suas intervenções no ambiente cultural brasileiro e, sobretudo, as obras que o compõem. Iniciada nos primeiros anos da década de 1980, a Coleção Figueiredo Ferraz desde cedo se define por, entre outras coisas, uma constituição rente ao momento de feitura dos trabalhos. Eis um acervo em construção à queima-roupa: em proximidade com o circuito, pensado e organizado em visitas a galerias, ateliês, museus e mostras, na interlocução com críticos, curadores e outros colecionadores, e, principalmente, orientado por obras recentes, tanto de artistas jovens, no começo da trajetória, quanto experientes, com um percurso de maior ou menor extensão já em andamento.

Esse vínculo com o tempo presente e o ritmo constante das aquisições acabam por atribuir à coleção uma capacidade de condensar, ainda que de maneira fragmentária, uma parte significativa do clima em que foram realizadas as peças que a constituem. Por isso, após mais de 40 anos em estruturação e com mais de 1.000 itens catalogados, o corpo de trabalhos reunido até aqui contém uma visão particular, bastante específica, e, a uma só vez, ampla, panorâmica, do que ocorreu em artes visuais, no Brasil e no mundo, nesse período. Trata-se afinal, de um lado, do ponto de vista de dois brasileiros – um economista e uma administradora de empresas –, empenhados na formação de um acervo, a partir do interior de São Paulo e sem uma colaboração direta de curadoria. O que os dois armaram é uma das primeiras coleções privadas de fôlego (em número de obras, na variedade de autores, no rigor das escolhas etc.) dedicadas à arte contemporânea no país. É também uma das primeiras e poucas coleções particulares de arte contemporânea do país a reunir obras de artistas brasileiros e de outras partes do mundo. Então, mais do que produto ou reflexo, esse acervo é agente de seu período. E, como tal, participa de maneira importante da construção de um circuito brasileiro de arte contemporânea.

De outro lado, torna-se notável o quanto essa coleção é capaz de informar – por sua extensão e inclusive por aquilo que não abrange – sobre as mudanças que o campo artístico atravessa desde o final do século XX. A começar pelas acepções e usos da noção de "arte contemporânea" nesse arco de tempo. No Brasil, o termo passa a circular como conceito – e não como marcador cronológico, que designasse apenas genericamente uma arte atual –, no final da década de 1970, empregado por artistas e críticos a fim de descrever um conjunto de propostas motivadas pela transformação das linguagens artísticas vigentes, ou recorrentes, à época. Tais propostas – que, de maneira geral, instituíam as próprias condições de produção e circulação, sem espaço no cenário cultural do país em meio à ditadura militar (1964-1985) – dialogavam, de maneiras variadas, com as radicalidades da modernidade, mas se diferenciavam tanto das faces nacionalista, populista ou belas-artes de parte do modernismo brasileiro, quanto da assimilação institucional da arte moderna no contexto euro-norte-americano. Nessa conjuntura, a manifestação da rubrica "arte contemporânea" tinha peso de engajamento.

Já a partir da metade dos anos 1980, o processo de globalização do sistema artístico se dá justamente sob a égide da arte contemporânea, com a expansão, por diversas partes do planeta, de bienais, feiras e instituições voltadas à difusão da produção artística da atualidade e, pela primeira vez, vinda também de cantos variados do globo. A ponto mesmo de o rótulo "arte contemporânea" ser confundido com uma espécie de vocabulário de uma comunidade global, marcado por padrões, cacoetes até, e dicções locais – um fenômeno mensurável, talvez, por livros e exposições de itinerância internacional, que se popularizaram entre os anos 1990 e 2010, dedicados à arte contemporânea latino-americana, africana, asiática, chinesa, do leste-europeu, do Oriente Médio; de regiões que, enfim, permaneciam negligenciadas por um circuito denominado internacional, embora permanecesse restrito a agentes com base em umas poucas cidades da Europa e da América do Norte, onde ainda hoje se concentram as instâncias de poder e decisão. Naquele momento, também a presença da arte brasileira, ou mais especificamente de determinadas obras e artistas modernos e contemporâneos do país, cresceu de maneira inédita na cena internacional.

Hoje, no entanto, o termo "arte contemporânea" parece esvaziado, ou no mínimo fraco e pouco mobilizado nos debates que se encontram em aberto (sobre autoria, representatividade, revisões de cânone, sustentabilidade) – quase convertido, na prática, em categoria de classificação de acervos e programas institucionais, de casas de leilão, de departamentos universitários etc. À queima-roupa propõe, desse modo, o exame das possibilidades de um distanciamento em relação a essas últimas quatro décadas. A seleção apresenta mais de 130 obras da Coleção Figueiredo Ferraz, nos dois pisos deste instituto. São trabalhos produzidos, em sua maioria, a partir de 1980, por artistas brasileiros, de outros países da América Latina, europeus e asiáticos, entre esculturas, pinturas, desenhos, fotografias, vídeos e livros. Uma variedade de autores, linguagens, materiais, procedimentos e escalas, que tenta dimensionar a envergadura desse acervo: seja pelo nível de exigência dos colecionadores em seus julgamentos; seja pela atenção de ambos à diversidade e, mais que isso, à complexidade da produção contemporânea e de uma cena artística então em processo de globalização; seja pela ambição, que se afigurava já nos planos iniciais de Dulce e João Carlos, de conferir a esse corpo de trabalhos uma existência pública correspondente à sua relevância para o pensamento sobre arte agora.
Rua Maestro Ignácio Stábile, 200 | Alto da Boa Vista | Ribeirão Preto | SP | Brasil
Terça a Sábado, das 14h às 18h | Entrada Gratuita
+55 16 3623 2261 | +55 16 3623 2262
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